nunca se sabe o que nos pode passar pela cabeça

Vivo a procurar saber se estou vivo, se estou a sonhar, se vivo sonhando, ou se sonho vivendo. Não agito os comuns problemas existenciais do amor e da morte, apenas me coloco, sempre que posso, no lugar de observador. E, de certa maneira, sou quase feliz porque não pretendo sê-lo de qualquer maneira.
António José Costa Carneiro | Cria o teu cartão de visita

22/08/08

Zaralhice

zaralhice
(zaralho + -ice)

s. f.
1. Mad. Qualidade de quem é zaralho.
2. Mad. Grande confusão. = caos, desordem ≠ arrumação, ordem

17/08/08

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço em que de penetrar-te me senti perdido no ter-te para sempre


Quanto de ti, Amor...


Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na auséncia indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

Jorge de Sena
 

09/08/08

Vem para o meu mundo


Foi apenas um toque nas portas do teu amor
que me fez entrar além do sonho
onde vi que morava a minha imortalidade incorporada.

Foi o teu beijo do céu
que me mostrou a vida sem a fronteira final da paixão
onde jamais alguém esteve
e eu sonho atravessar contigo.

Vem amor para o meu mundo,
paralelo ao rio da solidão
onde aprendi a esconder os segredos amordaçados.

Preciso de ti
para me ensinares que as flores têm alma
e que sonhar é a realidade maior.

Abrirei as asas
para te abraçar na sombra dos nossos rostos
unidos no perfume do mar.

Vem para o meu mundo

Até lá,
á lua me entrego.

aj carneiro

31/07/08

Nós e os nós
















Nós e os Nós

As línguas dão o nó,

Atam-se nos céus das bocas,

desvenda-se a noite

nos corpos colantes

fugidos pelo gozo

á consciência em chama.


Diluída a pequena morte

no prazer da convulsão

acaba-se a húmida trama,

desatam-se os sexos,

escorre o amor pela cama.


aj carneiro

29/07/08

Apetece-me escrever as palavras todas



















Ausentaste-me. 

Apetece-me escrever as palavras todas, mas sei que silenciamos os mundos entre nós. 

Penso no nosso primeiro beijo e atravesso todos os beijos até ao limite da sombra dos lençóis enrodilhados nas tuas pernas na última vez que estivemos juntos numa cama. 

É magoado o ar que respiro quando estou fora de ti. Lembro-me como já fomos inteiros juntos, como ardíamos até à exaustão dos venenos enquanto me abrias o teu corpo, e fundíamos as línguas no interior das nossas bocas dissolventes. 

Eu sei que as estrelas, testemunhas passivas da nossa paixão, cintilam agora, o silêncio da minha solidão que me queima os anos. 

Eu sei que as árvores por onde os nossos corpos transpirados se abeiraram em amor esperam pelos incêndios que um dia as reduzirão a cinzas sem memória. Mas sei, também, que todas as vezes que te disse "AMO-TE" foi dito como nunca o havia sido por alguém e sempre te direi de modo igual enquanto os silêncios forem maiores do que a tua ausência.

aj carneiro



foto de Caamano Castro

06/07/08

Procuro nas palavras



Procuro nas palavras
o caminho de regresso a ti
nas noites sem madrugada.

Quero falar contigo
dizer-te
simplesmente
que estou aqui.

Eu sei que o latido dos cães da cidade
cristaliza a noite na transparência do teu olhar
e tu não vês
o navio
que do meu peito parte
à descoberta
da foz do rio
que nasce no centro do teu corpo.

aj carneiro

05/07/08

Estou preso numa cela
















Estou preso numa cela

Nas trevas do pensamento

Minha paixão é luz de vela

Que tremula no firmamento



Por roubar sonho proibido

Ao fado que da vida herdei

Meu louco coração perdido

Não sabe que me encontrei



Sem me poder libertar

da lei que me condena

Sou culpado por te amar

e amar-te é a minha pena.




aj carneiro

28/06/08

Pescoço



Entre o teu pescoço e o ombro
Encontro o destino da minha boca,
O leito do meu rosto,
Onde repouso da jornada
Que empreendo pela tua pele.
Exploro com os lábios as orelhas,
Molhando-as com o desejo,
Mordendo-as ao de leve,
Tocando com a língua devagar.
Deslizo por ti
Pelo pescoço sensual
Que se me oferece
Que se abandona
que se arrepia a um sopro
Que eu saboreio
E sabe-me a paixão
E sabe-me a infinito.
Contemplo a verticalidade
do pescoço,
altar da minha devoção.
Suspiro.
Partem os lábios
do pescoço
para o resto do corpo
à descoberta dos teus sentidos.

aj carneiro